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coberturas planas
Cadê o telhado?
Para compor com projetos contemporâneos aposte nas coberturas planas, herança da arquitetura modernista, que tirou os ornamentos excessivos das edificações

Texto: Sandro Prezotto


O projeto da arquiteta Beatriz Dutra conta com telhas de barro que ficam escondidas atrás da platibanda de 50 cm, executada em alvenaria. O telhado da casa tem inclinação de 10% e recebeu proteção com manta impermeável. O beiral foi executado em concreto e pintado.
Fotos: Divulgação

As casas modernistas acabaram com o ecletismo na arquitetura e trouxeram suas formas simples, adequadas à vida contemporânea. Uma das características mais marcantes destes projetos é a cobertura plana, em que o telhado fica escondido. Mas como são executadas estas obras? Quais são as diferenças para as coberturas convencionais e os cuidados a serem tomados?

Execução do projeto

"O uso dos 'telhados modernistas' é cada vez mais recorrente na arquitetura. Trata-se de uma cobertura escondida através de platibandas (paredes baixas e isoladas para formar as bordas do telhado)", analisa o arquiteto Alfredo Kobbaz.

Com ou sem telhas?

Para a execução é possível utilizar telhas ou não. Se a opção for pelo uso, a cobertura é executada sobre uma lajeforro, que recebe uma estrutura auxiliar para fixação das telhas (podendo ser tesouras, pontaletes ou empenas de alvenaria) que direciona as águas pluviais para calhas embutidas, que por sua vez direcionam para os condutores. As telhas mais usadas são de barro, alumínio ou fibrocimento. Como ficarão escondidas, a aparência não será fator relevante. Já para projetos com coberturas sem telhas, Kobbaz orienta a execução de uma laje impermeabilizada, que recebe uma camada de regularização com caimento mínimo de 1% em direção aos coletores de águas pluviais. "Em um projeto modernista, costumamos utilizar beirais e platibandas, como elementos predominantes de fachada, que ajudam a esconder o telhado", explica o arquiteto Adérito Nascimento.

Escoamento correto

A arquiteta Taina Tikkanen conta que, para projetos com esse tipo de telhado, a laje plana, escondida pelas platibandas, recebe uma pingadeira de chapa metálica dobrada para impedir que a água escorra pelas paredes. A arquiteta Beatriz Dutra acrescenta que é indicada a execução desse telhado com uma pequena inclinação. "Se houver telhas planas, deve ficar em torno de 7%. Com telhas de barro, a inclinação é maior, mas é preciso estudar se a altura do telhado ficará baixa o suficiente para não aparecer na fachada"

A inclinação dependerá do comprimento da cobertura e do tipo de telha utilizada. "Para as telhas trapezoidais, a inclinação recomenda é de 5% a 9%. Para as onduladas, de 9% a 18%", indica Taina. "Para cada metro de telha, exige-se 5 cm de altura. Também é muito comum não haver necessidade de recobrimento (uma telha sobre a outra), o que deixa a inclinação ainda menor", defende Nascimento.

Na casa projetada pela arquiteta Taina Tikkanen, o telhado foi projetado com telhas metálicas trapezoidais com inclinação de 9%. A platibanda de 50 cm de altura foi construída em alvenaria de blocos cerâmicos com pingadeira em chapa metálica dobrada. Em vez de beiral, Taina optou por algumas lajes de concreto impermeabilizadas com Vedapren branco, que têm a função de proteger as janelas.

Platibanda

Trata-se de uma pequena parede, de cerca de 1 m de altura, executada com a finalidade de 'arrematar' o topo das edificações, utilizada na maioria dos casos para esconder o telhado. "Elas são executadas em alvenaria, podendo ser uma continuação da parede externa da casa", afirma Nascimento.

A arquiteta Beatriz Dutra conta que utiliza tijolos de barro ou cimento e que não existe uma altura padrão para a platibanda. "Também é possível fazer uma espécie de beiral em concreto, que serve para proteger as paredes externas das chuvas".

É preciso ficar atento à impermeabilização deste elemento. "A mesma proteção da laje deve subir na platibanda, ao menos 30 cm. O canto dela deve ser arredondado e a manta deve ser instalada em uma reentrância que é protegida por um mastique (material impermeável flexível que impede a infiltração nesse ponto vulnerável da manta). O topo da platibanda deve ser protegido por uma pingadeira, que além da chapa metálica dobrada, também pode ser executada em concreto", acrescenta Taina.

Para não entrar água

Se a laje for apenas impermeabilizada, ela deve possuir caimentos para os condutores que devem ser dimensionados em função da área da cobertura. Taina ainda sugere aplicar manta asfáltica sobre primer com proteção mecânica de areia e cimento de, no mínimo 3 cm, com uma malha de tela galvanizada (tipo galinheiro) ou telas plásticas.Se forem utilizadas telhas, são necessários calhas e condutores. "Como qualquer telhado, precisamos destes componentes. O ideal é esconder os condutores dentro das paredes para um melhor resultado estético", aconselha Beatriz.

Vantagens

Kobbaz acredita que as coberturas modernistas tenham custo menor de execução. "Nos dias de hoje, estamos com certa escassez no mercado de madeira. Por isso, a utilização de um sistema convencional tem tornado as construções mais caras. Fora isso, a manutenção da cobertura plana sem telhas, quando bem executada e dimensionada, é praticamente nula", declara Kobbaz.

Segundo Nascimento, a principal diferença para um telhado comum é que, como ele fica escondido, não é preciso utilizar telhas bonitas, que são caras, nem estruturas pesadas ou difíceis de executar. "Por essas mesmas razões, esse tipo de telhado acaba ficando mais barato". Segundo ele, a construção também é mais rápida.

Conforto térmico

Se não forem utilizadas telhas, é preciso cuidado para garantir uma temperatura agradável dentro de casa. "Necessitamos adicionar à execução da laje placas de isopor, argila expandida, mantas de fiberglass ou outro material isolante térmico, para que o pavimento sob a laje fique com temperaturas adequadas", aconselha Aderito. Outra opção é usar uma telha de alumínio, tipo 'sanduíche', que recebe poliuretano expandido - além do conforto térmico tem bom desempenho acústico.

Opção sustentável

"Uma tendência atual é utilizar uma cobertura vegetal, o chamado telhado ecológico. Porém é preciso muito planejamento com sistema de drenagem e análise estrutural, para ver se a laje aguenta o peso", finaliza Taina

O arquiteto Adérito Nascimento optou pelas telhas trapezoidais de alumínio com injeção de poliuretano expandido para controle térmico e acústico (Thermotelha). O telhado da casa, com inclinação de 5%, fica escondido atrás das platibandas, executadas com 1,40 m de altura. Em alguns pontos da fachada frontal, a platibanda foi construída usando os mesmos materiais das paredes da casa: alvenaria resvestida com massa texturizada. As platibandas mais altas do telhado detrás da casa foram feitas com alvenaria revestida com argamassa de cimento e bianco, simulando concreto aparente. Os beirais foram executados em concreto armado também revestidos com a mesma argamassa. Somente foi feita impermeabilização sobre os beirais de concreto, usando-se manta asfáltica.