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Mimos cheios de carinho
Inspirada na literatura infantil e na poesia, Patrícia Henriques faz de sua cerâmica mimos delicados e carinhosos que despertam a curiosidade, risadas e bons sentimentos

TEXTO: LUIZA COSTA
FOTOS: RICARDO BREDA



FOTOS: RICARDO BREDA

Em um sítio distante, Monteiro Lobato criou a atrevida Emília, boneca de pano, de cabelos revoltos, olhar curioso e atento, cheia de filosofias e muito, muito faladeira. Em um mundo menos fantasioso, mas não menos colorido, a artista plástica Patrícia Henriques encontra em Emília e no jeito de ser da boneca as características e sabedorias necessárias para criar seu trabalho.

Na filosofia Emiliana mais admirada pela artista, o mundo é um rosário de piscadas e cada pisco é um acontecimento. Patrícia começou a piscar há 33 anos e, num desses dias, piscou para a arte. "Descobri que queria as artes plásticas ainda na escola, pois sempre gostei de desenhar. Foi uma decisão muito ingênua", recorda a artista.

Porém, não foi em uma piscada que Patrícia virou ceramista. Primeiro mudou-se da casa dos pais. Mais tarde, descobriu o grave problema com alergias que a fizeram desistir da fotografia e das telas. "Não fui eu quem escolheu a cerâmica. Foi ela quem me escolheu", brinca. Antes de pôr a mão na massa, ela ainda seguiu a carreira teórica. "Durante a faculdade trabalhei no Liceu de Artes e Ofícios e na Pinacoteca."

Entre uma piscada e outra, ela decidiu voltar para a oficina. "Nessa época, fui trabalhar em uma livraria para juntar dinheiro e começar a fazer meu próprio trabalho", conta.

FOTOS: RICARDO BREDA
NA PÁGINA ANTERIOR, a Vírgula o primeiro trabalho com frases de Patrícia. Abaixo, a árvore cheia de movimentos, feita de argila tabaco, ganha vida e cor com pássaros feitos de argila marfim. Já nesta página, as irmãs passarinhas Nina e Pituca, levam um delicado desenho de esmaltes, pintado sempre após a estrutura cerâmica já ter passado pelo forno.

Espontânea, Patrícia faz caras e bocas para contar suas histórias, cheias de finais felizes, como nos contos de fadas

Enquanto juntava dinheiro, Patrícia reuniu outras duas paixões: a literatura infantil e a poesia. "Estava cansada de trabalhar na seção de arte e pedi para ir para a de literatura infantil. Foi quando descobri a riqueza que há por detrás dessas histórias", fala a artista. São elas que dão o toque lúdico e fantasioso à cerâmica de Patrícia. Segundo ela, a infância tem uma liberdade de sentimento que não possuímos mais depois.

Assim também foi com a poesia, presente em muitos mimos. "É por isso que aparecem reticências, parênteses... são esses detalhes que deixam tudo mais afetuoso", explica a artista. "A ideia de que mais gosto é a de que crio uma peça não só útil, mas que tem uma mensagem. É interessante quando você mostra e as pessoas dão risada, se emocionam, pois elas deixam de esconder seus sentimentos", comenta.

FOTOS: RICARDO BREDA

Mas esse resultado nem sempre é fácil. "Não tem como eu começar uma peça hoje e terminá-la hoje. A cerâmica tem o tempo dela", fala. Além disso, as peças vão ao forno duas vezes: uma após montada a estrutura e outra depois que Patrícia cria os desenhos que receberão esmalte. "A cerâmica tem uma cor própria muito bonita. Nem sempre cabe colocar esmalte. Ele deve iluminar a peça, não tirar a beleza própria dela", explica a artista, que é muito ligada à raiz da cerâmica indígena.

Hoje, também a própria argila aflora os sentimentos de Patrícia, mas, segundo ela, são as melhores lembranças da vida a sua fonte de inspiração. "Meu trabalho é apenas uma tentativa de eternizá-las."

FOTOS: RICARDO BREDA
INUSITADAS E DIVERTIDAS, as Jacaroas, na página anterior, espalham dizeres por aí, sejam de alerta: "cuidado com a baranga que a baranga te pega", sejam de amor: "anúncio: jacaroa impertinente procura sapo contente para relação ardente. Joaninhas, por favor, não tentem mais. Já me magoaram demais". Nesta página, os chocalhos passarinhos, como está escrito nas peças, fazem "cócegas nos dedos". Ao lado, a primeira experiência de Patrícia com formas pouco convencionais para a argila, um guirlanda de flores cheia de torções. Abaixo, o vaso de flores, feito de argila marfim, "que valoriza o brilho natural das plantas", como explica Patrícia, pode ser colocado sobre a mesa ou usado como móbile. Todos os mimos estão à venda no ateliê da artista.